Caros passageiros,
Quem quer entender um pouco o Brasil de hoje, dará um grande passo conhecendo um pouco uma das maiores empresas privadas do mundo: a Vale.
Nossa história começa no processo de criação da Companhia Vale do Rio Doce, empresa estatal criada no governo Getúlio Vargas para deter o monopólio da extração de nossas riquezas minerais. A lógica era a mesma da Petrobrás, para o caso do petróleo: as riquezas do nosso subsolo são de propriedade de todos os brasileiros, então deveria ser criada uma empresa estatal para extraí-las e comercializa-las. É claro que, por trás dessa nobre causa, havia também os interesses de nossa burguesia que, à época, era ainda incipiente; para ela, uma empresa estatal, com muitos recursos, poderia ser utilizada para fomentar os negócios industriais, fornecendo a matéria-prima a baixo preço. Essa conjunção de interesses distintos foi a marca do período Vargas, e ele próprio se equilibrou entre eles até seu suicídio.
A CVRD, como todos sabemos, não existe mais. Foi privatizada por uma micharia no governo FHC, num processo cheio de falcatruas, e tornou-se a Vale. Quem são, hoje, os donos da empresa?
A Vale tem inúmeros acionistas, mas é administrada por um conjunto de investidores que forma o “bloco de controle” da empresa: o ValePar – grupo acionário que detém 52,7% das ações totais, sendo as únicas com poder de voto.
Dentro do ValePar temos uma verdadeira radiografia do poder no Brasil:
- Capital Financeiro Nacional: o Bradesco é dono de 21,2% das ações da ValePar
- Capital Financeiro internacional: o grupo japonês Mitsui, que detém 18,2%;
- A máquina estatal: o BNDES é hoje o maior banco de investimentos do mundo, e é graças a parcerias com ele que se formaram as atuais empresas oligopólicas do Brasil, como a Odebrecht, o grupo EBX, a Gerdau, e muitas outras. No caso da Vale, por exemplo, o BNDES é dono de 11,5% das ações da ValePar e de mais 6,7% das ações sem direito a voto. Fora isso, o banco aparece como parceiro da empresa em diferentes empreendimentos, como faz com muitas outras empresas privadas.
- Os Fundos de Pensão: o grupo Littel detém a maior fatia das ações da ValePar (49%). Esse grupo reúne diversos fundos de pensão do país, dentre os quais o mais importante é a Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil). A administração desses fundos de pensão geralmente é dividida entre o Estado e os funcionários acionistas, através de seus sindicatos. Como atualmente o PT tem hegemonia nas duas pontas (isto é, tanto no governo quanto nos sindicatos) podemos dizer que sua influência é considerável na administração desses fundos bilionários. Isso não significa, porém, que os fundos de pensão funcionem como empresas públicas. Ao contrário. Como precisam apresentar resultados a seus acionistas, eles atuam como capitais de investimento privados, visando lucro.
A VALE E OS GOVERNOS DO PT
A análise da composição acionária da Vale revela um pouco do projeto representado pelos últimos governos do PT: usar o Estado (através de bancos e fundos de pensão) para criar mega-empresas de ação global, e usar nossas vantagens geográficas comparativas para desenvolver a economia e assegurar nossa posição de potência capitalista emergente. Para tanto, novas alianças são feitas a nível internacional, especialmente com países do sul que possuam interesses complementares aos nossos.
De um lado, temos a China, país que compra quase metade de todo o minério extraído pela Vale. Nossas minas e a destruição do nosso meio-ambiente são essenciais para a continuidade da expansão industrial chinesa (o que significa dizer: essenciais para o capitalismo hoje, já que a China funciona hoje como a locomotiva da economia global). Além disso, a China e os demais BRICS tem interesses semelhantes aos brasileiros no que diz respeito a política externa: tanto eles como nós querem quebrar a hegemonia dominante representada pelos EUA e a Europa Ocidental (ou, em termos militares, pela OTAN).
De outro lado, temos a América Latina, cujos países são incorporados à nossa economia como sócios menores. Veja que essa incorporação concilia questões estratégicas e ideológicas com os interesses privados das mega-empresas que foram criadas. Assim, por um lado temos uma política externa que procura diminuir a influência imperialista dos EUA, que se aproxima de governos revolucionários (como Chávez, Morales e até de Cuba), e que condena golpes de estado perpetrados pela extrema direita do continente (como no caso de Honduras).
Mas, ao mesmo tempo, essa mesma política externa defende os mais mesquinhos interesses dos grandes grupos privados do país. Assim, não é por acaso que o Brasil já é visto, por boa parte dos movimentos sociais latino-americanos e africanos, como um país imperialista como outro qualquer. Bolívia, Equador, Angola, Chile… em todos esses países, a visão que se tem do Brasil vem mudando.
O BRASIL POTÊNCIA
Recentemente, a Vale foi eleita a PIOR EMPRESA DO MUNDO. Pesaram na decisão as catastróficas consequências ambientais de suas ações na Amazônia, além dos milhares de processos movidos contra a empresa, que vão desde questões trabalhistas até desrespeito aos direitos humanos.
Só a Vara do Trabalho de Parauapebas, no Pará, onde está a maior mina de ferro do mundo, condenou a Vale a pagar mais de R$ 100 milhões por danos morais coletivos e R$ 200 milhões por dumping social. A jornada de trabalho dos operários da empresa, que deveria ser de 6 horas, chegava a ser de 15 horas (!!!), incluindo o translado que os trabalhadores precisam fazer até pontos específicos da mina (que é realmente GIGANTESCA) e outras tarefas relacionadas ao trabalho.
Para se ter uma ideia da brutalidade crescente da empresa, em 1995 a Vara do Trabalho de Parauapebas registrou 1.878 processos trabalhistas. Esse número aumentou para 3.752 em 2006 e atingiu espantosos 6.761 em 2009! Quer dizer, a empresa é uma máquina de moer gente e floresta, e leva para outros países a mesma lógica brutal que aplica no Brasil.
Esse é o país que queremos? O que a Vale mostra do atual projeto de país que temos no Brasil? Fiquem com essa imagem abaixo para pensar…


